sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Regresso



Hoje o sol ingressa em Aquário
e tantas belezas o Astral nos traz
Meu coração ingressa em viagens utópicas
rumo a destinos que ninguém conhece mais
rumo a estações desertas, mas ruma
ingressa numa galáxia pintada 
pára, olha, salta
salta, olha, pára no ar
Onde o coração ingressa tem veias abertas
onde o coração recua tem planos infinitos
pobre coração, escravo dos humores da mente
mas Senhor soberano dos caminhos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Do mesmo verbo




Só vai.
Vai só, sem olhar 
para onde
como ou quando.
Vai sem
Vai, sem tocar a ida
fingindo a vinda
estando.
Vem, fica sem sair
vai a vinda, volta a ida
sem estar em nenhum lugar
que não, aqui.
Finda, 
que é fica com vinda
acaba esta saída,
deixa de ir.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sem Ver



O que os olhos não veem
o coração mistura com o que os ouvidos não ouvem
com o que as mãos não tocam
com o que os pés não andam
com o que a mente não pensa
com o que a boca não fala e os lábios não beijam
e sente.
O que fica em auto-relevo na gente não precisa da visão.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pedaços de Tudo e Nada



Tem vezes que a dor transforma a gente
em arte
E então ficamos expostos.

*
Eu não preciso saber que não
não preciso dizer que sim
De ouvir silêncios
calo palavras que habitam em mim.

*
Hoje já é amanhã
e se ontem não estiver no futuro
eu juro
Vou voltar do passado pra sempre!

*
Não conto o tempo em anos.
Para dizer a verdade, não conto o tempo. Ele é que me conta com algumas histórias simples que faço questão de viver, e algumas pessoas que, quer estejam, quer não, são testemunhas de tropeços e sorrisos que explodem enquanto caminho.
Se eu me fosse do mundo amanhã (e não pretendo ir tão cedo!), levaria destas, muita saudade, um traço de lua, um raio de sol, e as músicas.

*
Uma lua redonda
cheia de eternos e internos
me observa.

*
Algumas vezes as palavras ficam muito exatas para exprimir o que só pode ser dito com entrelinhas, anteses, depoises, talvezes e hipóteses.
É nesta hora que a expressão sem palavras serve, como só os grandes amores imperfeitos sabem servir.

*
Sorria, 
mesmo quando o coração pensa em chorar
e transmute energia
gerando luz de cortes,
fazendo a escolha grande
de não ancorar a Alma
em solo seco.

foi então, que choveu



nada demais.
apenas, choveu.
choveu leve e mansamente como chovem vários dias.
de dia fez sol, mas no final da tarde foi nublando, nublando
e então aconteceu. 
é que os finais de tarde, com por de sol à vista, ou não,
são os melhores. minha hora favorita
e foi nesta hora hoje que choveu. 
céu cinza, bem a meu gosto, para amparar o calor
para acalmar ânimos e animas.
e o vento com cheiro de chuva, este é o melhor.
o cheiro da chuva traz tanta coisa! o movimento do céu, das nuvens, do ar.
o movimento da vida, só que diferente.
fico reparando nestas bobeiras, sentindo o aroma da umidade chegando 
e pensei que o vento poderia trazer gente 
como se gente fosse gás, fumaça, perfume. poderia vir no vento
transportar no pensamento, quase "jennie é um gênio" 
e de fumaça, virar gente noutro lugar.
gentificação. transporte garantido no minuto que não dá mais para esperar.
tá certo que foi pouquinho que choveu
nada que justificasse essa coisa toda, tanta pensação.
mas é mesmo nas bobeiras que eu fico mais
com vontade de te contar. 
nas bobeiras onde a vida mostra mais 
diz mais, canta mais e cala mais. 
sabe? os detalhes? por causa deles é que eu sou eu
é que você é você
e nós não somos nós.
mas não era para tanto. só queria mesmo
contar que choveu.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Qualquer Estação





A Natureza, em toda sua sapiência, há muito nos ensinou. No verão, na primavera, armazenamos para o inverno. No calor, armazenamos para o frio. Quando há sol, armazenamos para quando não há.
E sempre, na vida dos mortais, como na natureza, armazenamos momentos de inteireza e felicidade quando em nossos verões particulares, para deles nos alimentarmos em nosso íntimo inverno. Fazemos fotos, risos, músicas, palavras, dias exclusivos e irrepetíveis. Todos para nosso depósito, nosso armazém translúcido e alado. Mesmo assim, sempre somos pegos de surpresa pelo inverno, que diferentemente da natureza, no interior de nossas vidas não tem data nem anuncia-se para começar. É preciso estar preparado, alguns invernos são autoritariamente rigorosos. Convém estar com o depósito abastecido.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Vida é o Cúmulo




Tem dia que anoitece querendo a revolta , a indignação, o ódio, mil declarações naquele tom de "isto não vai ficar assim" ou "eu me levantarei" - o cúmulo da dor de cotovelo, convenhamos; e o cúmulo do ridículo da carência. 
Já não com tanto humor, é possível afirmar que é também o cúmulo da injustiça, da  dor. E se dor, por si, e como a palavra mesmo anuncia, machuca... pensar no cúmulo da dor não é coisa agradável de se fazer numa segunda-feira de manhã. Estraga todo clima de início. Mas os nossos ciclos são exatamente assim. Nunca veem antes para perguntar se é bom o momento para aparecer. É o cúmulo da inconveniência. Sempre quando não queremos, quando não precisamos, quando não gostaríamos, quando estávamos indo quase bem, quando tínhamos alguns esboços tímidos de planos e direções mais alegres na cabeça. São repetitivos. Dizem-se de si, depois de já haverem dito tudo. De verdade, atrapalha a agenda da gente sofrer. Mesmo aquele sofrer onde você se levanta, sim; se veste, e aparece para dar conta do recado. Mesmo aquele onde você passa um bom batom, coloca um som legal, pesquisa coisas produtivas e se recusa a ficar no seu umbigo, interessando-se por assuntos do mundo e do ser humano. Mesmo quando você tem várias paixões na vida, aquelas que lhe empurram para frente e fazem olhar com encanto poético para a beleza do que lhe espanta. Mesmo o sofrer no qual você tem absoluta consciência do desperdício de tempo do qual vem sendo autor, do quão inútil será, e da quantidade de coisas absolutamente inadiáveis que precisam ser postas em movimento. O cúmulo da falta de inteligência, mas não direi burrice para não ser cruel em momento desnecessário.
Tem sempre aquele dia no qual você simplesmente precisa desabar. Assim mesmo, como uma encosta, que traz abaixo as construções e vidas cobertas em solo barrento. E vida mais soterrada, é certo, é a sua. A sua e todas aquelas sub-vidas, semi-vidas, micro-vidas que construiu, cultivou, adornou, perfumou, adoçou, lumiou, abraçou, invocou, acalentou, encantou, profetizou, cantarolou, poetizou, e acreditou, por entre e por dentro da sua. Sub-semi-micro vidas que vão se enlaçando em nossos muros como trepadeiras sem-vergonhas, quando existe o amor. 
O patético, é que ninguém se importa. Nem com o amor, nem com o desabamento. A única pessoa que genuinamente enxerga e sente isto como um grande evento, é você. Porque o mundo, meu bem, continua girando exatamente do jeitinho que você deixou quando saiu para desabar. Claro que você tem a noção de que tudo isto é o seu ressentimento desesperado falando. Como se fosse alterar qualquer coisa para você que o mundo pararasse de girar. O cúmulo da tolice - que tolice passa a ser seu sobrenome. É que quando a gente sofre só, sem o testemunho - tragi-ironicamente - de quem lhe provocou o sofrimento, parece que a coisa multiplica-se de maneira tal, que chegará ao ponto de lhe engolir e nunca mais expelir de volta à vida real. 
Mas há um porém, sempre há um porém. Ou vários. Resgatado o corpo dos escombros do desabamento, e dando uma olhada honesta no espelho, talvez aconteça de enxergar que é mentira a falta do testemunho de quem provocou o sofrimento. Quem provocou o sofrimento, caríssimo, foi você. Assim, talvez seja apenas justo que ninguém mais acompanhe a encosta vindo abaixo. Que testemunhando-se, você, e só você, saiba até onde foi capaz de chegar na hora escura - o cúmulo da vergonha. Mas há um confortozinho besta, que tudo é besta e desnecessário no mundo no dito momento, em saber que o mundo vai estar lá, ou logo ali, girando, em qualquer situação. Caso hajam sobreviventes, será bom ter o mundo para onde voltar - o cúmulo da auto-condescendência. Da falta de opção.